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‘Elo’, uma declaração de amor ao público

Fonte: O GLOBO

Crédito: Mônica ImbuzeiroRIO – Sentada numa cadeira de acrílico de frente para uma vista exuberante da Lagoa Rodrigo de Freitas, Maria Rita se debruça sobre o janelão, mira um sujeito lá embaixo e brinca:

– Esse cara não tá correndo para emagrecer, né… All Star, camisa preta… Tá correndo é pro Rock in Rio – diz a cantora.

Coisa que ela fará amanhã para assistir ao show de Stevie Wonder na Cidade do Rock. O ícone da soul music tem a ver com o que ela anda escutando nos últimos tempos: um mix de novas divas inglesas, que vai da finada Amy Winehouse à estrela Adele. Já as novas cantoras brasileiras, ela confessa, vêm sendo observadas “bem menos do que deveria”.

No ano que vem, Maria Rita completa 10 anos de carreira. Diz não saber ao certo o que a faz sobressair-se em meio à profusão de cantoras surgidas nos anos 2000. O que ela sabe bem é da sua devoção pelo palco – a razão, por sinal, para construir e lançar seu quarto álbum solo, “Elo”.

– Havia terminando a turnê de “Samba meu” (2006), e mesmo depois de dois anos e meio não queria me afastar do palco. O nome do disco tem a ver com essa ligação com o público. É uma paixão absurda, um vício. Meu grau de confiança vai às alturas quando estou no palco.

Maria Rita tentou descansar. Pensou num isolamento de seis meses, mas não aguentou seis semanas. Um convite para uma miniturnê na Europa jogou o retiro para outro campo. Juntou três músicos, um punhado de canções e caiu na estrada com um show sem nome, sem cenário… E que resulta agora em “Elo”.

– Cheguei a me perguntar: “Mas qual o sentido?” Mas aí comecei a reunir umas canções que eu gostava de cantar, alguns pedidos de amigos, a gravadora também pediu um disco… Não era o que eu imaginava, mas como não sou muito de encrenca comecei a gravar e foi bom para todo mundo – conta. – Além disso, senti a necessidade de fazer um exercício que fosse radicalmente diferente ao “Samba meu”. Entendi que só através da música eu poderia me desprender, curar um novo amor com outro, velha música com nova música.

Além da ligação com o público, “Elo” tem outros pontos de conexão. Nele, ouvem-se ecos dos três primeiros trabalhos da cantora. Nos arranjos, baixo acústico, piano e bateria guiam uma pegada semelhante ao seu disco de maior sucesso, o álbum de estreia, “Maria Rita”.

– Tem essa relação com o primeiro show que fiz antes daquele disco, então é como voltar ao começo da carreira, quando eu fazia shows com liberdade, sem cobranças. E também com aquela proximidade com o público que dá um frio na barriga…

Já do “Segundo”, Maria resgatou algumas sessões de faixas que chegaram a ser buriladas no estúdio com Lenine – produtor daquele disco – mas que acabaram não entrando no trabalho. Na linhagem de “Samba meu”, Maria Rita presta tributo a Monarco, com a faixa bônus “Coração em desalinho”, e deve ainda o fato de “Elo” ter surgido pela tal saudade incurável da turnê daquele disco, inteiramente dedicado ao samba.

– Eu era muito feliz com “Samba meu”. A grandiosidade da apresentação, trocas de figurino, cenário, luz, a sonoridade lá na frente. O Seu Jorge disse que era uma orquestra de samba. Então eu sofri, porque eu não queria parar de fazer. Chorava, mas não porque meu mundo caiu… Era pela separação, pelo divórcio, que foi unilateral. Ele que foi embora e me largou em casa, não eu.

O corte se evidencia nos primeiros segundos. “Elo” começa com uma espécie de faixa-oração escrita por Lula Queiroga, “Conceição dos coqueiros”, em que Maria Rita se aventura por alterações radicais na dinâmica de seu canto. Oscila entre líricos momentos de intimismo e rompantes de exuberância em versos como “Vem desabençoar essa tristeza intrusa, faz a ciranda na ladeira”, entoado nos momentos finais da canção, que se despede em meio aos sintetizadores pulsantes de “Santana”, um samba eletrificado assinado por Junio Barreto. Daí para a frente, “Elo” navega pela sinuosa e fragmentada “Perfeitamente” (Fred Martins e Francisco Bosco) até pousar em duas das faixas mais arredondadas do álbum, as inéditas “Coração a batucar” (de Davi Moraes e Alvinho Lancelotti), e o single “Para matar meu coração”, parceria de Pedro Baby e Daniel Jobim. As duas surgiram no caminho de Maria Rita em uma viagem a Jericoacoara, quando foi convidada a participar de um programa de TV comandado por Davi.

– É a primeira vez que gravo uma canção do Davi. Sempre tive uma admiração brutal, mas ficava de longe, tímida de chegar perto, mas como fui convidada, foi mais fácil. Não sou compositora, nem toco nada, mas lá ele e o Domenico foram me mostrando as canções, e aprendi na hora. Quando voltei, as músicas não saíam da minha cabeça, estudava a melodia sem parar.

A partir daí, “Elo” envereda por uma série de releituras, como a bela versão para “Menino do Rio” (Caetano Veloso), “A história de Lily Braun” (Chico Buarque e Edu Lobo), “Nem um dia” (Djavan) e “A outra”, de Marcelo Camelo, um dos compositores mais assíduos na obra de Maria Rita.

– Escolho as canções por ligação afetiva, relação emotiva mesmo. O Camelo, por exemplo, é muito acessível. Tem uma facilidade de unir letras e melodias, uma relação que se completa. É tudo muito belo, simples e cinematográfico. Se eu pudesse faria um disco todo com as músicas dele. Nesse caso, “A outra” é muito potente, e quem já foi a outra sabe bem…

Se “Elo” traduz a ligação com o público e com a própria obra pregressa da cantora, emerge também a sensação de fecho de um ciclo, como se Maria Rita habitasse uma zona de transição, cumprindo uma etapa ao mesmo tempo em que inicia um novo caminho ainda sem ponto de chegada. Diz que tem dois novos projetos nas mãos, mas, supersticiosa, se nega dizer o mínimo.

– Vou falar não… Aí já chega olho gordo. Tem um álbum que está quase pronto, mas ainda precisa de um caminho de amadurecimento.

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