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60 dias para o Viva Elis: Um elo que não se rompe

O post de hoje é especial: Uma outra matéria sobre a saudade da Elis, na Época. Lembramos a Maria Rita dessa matéria recentemente no twitter, confira:

UM ELO QUE NÃO SE ROMPE /Revista Época /Acervo Portal Maria Rita

“Estou preparada. Houve os cinco anos sem Elis, os dez, os 15, os 20 e assim será. Minha mãe não morreu, ela continua”, diz Maria Rita Camargo Mariano, enquanto gira as três argolas da aliança Cartier no dedo anular da mão direita, num gesto ansioso. Em uma delas, está inscrito o próprio nome — Maria Rita. Nas outras duas, o nome de seus dois irmãos — João Marcello e Pedro. O anel, jóia inseparável da cantora Elis Regina, é a perfeita tradução de um vínculo sedimentado na ausência: Elis faleceu na manhã de 19 de janeiro de 1982, no auge da fama, vítima de overdose. Foi-se a cantora, aos 36 anos, mas logo nasceria o mito, pronto para ser eternizado. “A última imagem que guardo comigo é a de vê-la deitada no caixão, cercada de desconhecidos”, rememora Maria Rita, que na ocasião estava com 4 anos. Num velório marcado pela comoção nacional, a garotinha passou de colo em colo durante horas, sem nada entender. “Eu só queria que aquelas pessoas deixassem minha mãe dormir”, revela.

Estudiosos do comportamento humano não se arriscam a definir, com precisão, a idade-limite para uma criança reter na memória imagens de quem a gerou. São processos que dependem de fatores pessoais, circunstâncias familiares, herança cultural. Maria Rita lembra-se da mãe como o epicentro da vida num chalé cercado de árvores, na Serra da Cantareira, na Zona Norte de São Paulo. Recorda-se de Elis depilando a perna. Soube que a mãe costumava fazer ela mesma as unhas, hábito que Maria Rita também tem. “Eu me apeguei a pequenas lembranças, mas eram insuficientes”, diz. “Ao reconstruir minha mãe, descobri que ela era uma mulher organizada, vaidosa e briguenta.”

Aos 24 anos, Maria Rita administra com os irmãos o legado materno. É um trabalho sem fim: lidam com direitos de imagem, com utilização de fonogramas, com roteiros para filmes etc. O pianista César Camargo Mariano, seu pai, casou-se com Flávia — a quem Maria Rita chegou a chamar de mãe. Preocupado em proteger a filha das inevitáveis comparações, levou-a para morar nos Estados Unidos, por oito anos. Só que o mito embarcou junto: Maria Rita cresceu tomando gosto pelo canto e, de volta ao Brasil, está decidida a seguir os passos de Elis. O estilo é diferente. A voz, idem. Um certo cacoete, contudo, é idêntico: como a mãe, fecha os olhos quando canta. “A falta que sinto dela é um buraco que não tem como ser preenchido”, lamenta.

A perda da mãe, independentemente de suas causas, é uma das experiências mais radicais na vida de uma pessoa. “Morremos um pouco também”, explica o terapeuta americano Stanley Keleman, um pesquisador das relações psicofísicas entre vida e morte. “Carregamos a mãe dentro de nós, incapacitados de romper com ela.” Sentimentos de medo, culpa e até de libertação mesclam-se nessa perda. Vive-se uma contradição radical: a morte rompe um elo que, a rigor, é inquebrantável. “Por mais traumática que seja essa experiência, eu acredito que o buraco fecha, sim”, opina a psicóloga Maria Helena Franco, da PUC-SP. “Principalmente quando há uma rede familiar disposta a fornecer apoio e carinho.”

Há quem duvide dessa cicatrização. A psicóloga mineira Flávia da Cruz, de 30 anos, carrega na carteira a única imagem que guardou de Maria — uma foto em preto e branco, ampliada de um 3×4 antigo. Quando passa por apuros, reza diante do retrato, como se ele fosse a representação de uma santidade. Maria trabalhava como babá na casa de uma família tradicional de Belo Horizonte, quando morreu por complicações do mal de Chagas. Flávia também tinha 4 anos. Os patrões da mãe assumiram a criação da menina, que passou a dormir no mesmo quarto e a estudar nos mesmos colégios das quatro filhas do casal. “Tive uma educação privilegiada. Mas, apesar de todo o amor que recebi, inúmeras vezes senti falta do colo materno.” O motivo poderia até ser de menor gravidade, como o rompimento com um namorado. O fato é que, inúmeras vezes, Flávia mergulhou numa solidão profunda, só atenuada com o choro noturno, abafado pelas cobertas, no quarto que dividia com as irmãs adotivas.

Não há teoria que explique (e classifique em modelos fixos) os efeitos da ausência materna. A causa da perda é uma das pistas para entender tamanha complexidade. “Uma coisa é perder a mãe num acidente, outra é perdê-la por escolha dela”, afirma a psicanalista e escritora Anna Verônica Mautner. “No primeiro caso, tem-se o trauma gerado por uma impossibilidade, no segundo, o trauma é agravado pelo sentimento de rejeição.” Não é à toa que o fotógrafo carioca Mauro Nascimento se refere à morte da mãe como “uma tremenda sacanagem comigo”. O drama da família começou em 1978. Mauro, sua mãe, Zélia, e o avô sofreram um acidente na BR-101 quando estavam a caminho de Guarapari, no Espírito Santo. Um caminhão atravessou a pista e colidiu frontalmente com o automóvel que ocupavam. Mauro, que dirigia o carro, escapou ileso. O avô morreu na hora. A mãe teve traumatismo craniano e nunca mais recuperou o equilíbrio emocional. Um ano depois, quando Mauro tinha 20 anos, Zélia se matou com um tiro na cabeça, na frente do filho.

Até o acidente, Mauro e Zélia mais pareciam dois amigos. Iam à praia juntos, por vezes freqüentavam as mesmas festas. Com o suicídio, Mauro mergulhou na bebida e passou a quebrar, aos socos, todos os vidros que via pela frente, indiferente às cicatrizes que se multiplicavam em seus braços. Só escapou à autodestruição ao se tornar pai de Sara. “Assumi o papel protetor que era de minha mãe”, reflete. Casos de suicídio são raros no Brasil — 4,3 por 100 mil habitantes, englobando homens e mulheres —, mas têm potencial para desmontar famílias inteiras. “Existem as que preferem não encarar a verdade e criam versões fantasiosas para as crianças. É dito que mamãe viajou e não volta mais”, conta a psicanalista Isabel Kahn Marin. É o pior dos paliativos. Na lógica infantil, quem viajou tem de voltar. Como não se consuma o regresso, surge a idéia de que a mãe partiu por alguma falha do filho. O sentimento de abandono passa a ser governado pela culpa.

O músico carioca Ricardo de Carvalho, de 29 anos, provou da mesma situação por outro motivo. Construiu a imagem da mãe com base nos depoimentos do pai, das tias e das pessoas que a conheceram. Soube, desde pequenino, que Beatriz morrera quando ele nasceu. Ela teve uma gestação complicada pela toxemia da gravidez, problema que impede a passagem de nutrientes para o feto. Por volta do oitavo mês, teve de fazer uma cesariana. Antes da operação, pediu aos médicos que fizessem tudo para salvar o bebê. Beatriz morreu no dia seguinte, Ricardo sobreviveu. Com o tempo, a relação entre pai e filho tornou-se fria e distante, como se a perda da mulher que eles tiveram em comum houvesse cavado um abismo entre ambos. “Às vezes me pego pensando que ela estaria viva se não tivesse ficado grávida”, explica Ricardo, criado pela irmã mais velha de Beatriz. Chega a definir-se como um felizardo por ter tido duas mães. Não é tão simples assim. “Nesses casos, a criança tende a crescer com a sensação de que fez algo errado”, diz o psicanalista paulista Renato Mezan. Filhos com tal estigma podem vir a ser adultos com incrível dificuldade de se impor.

Enterrar os pais, por doloroso que seja, faz parte do rol de expectativas dos filhos. Mas há sempre a esperança de que isso demore a acontecer, como se fosse um pesadelo adiável. Perder a mãe, no entanto, é trauma que mexe com a razão de ser e estar no mundo. Hoje, a ciência caminha no sentido de decifrar a íntima relação mãe—filho na vida intra-uterina. “Vivemos um tempo em que tudo é desvendado pela ultra-sonografia. É como se o bebê começasse a ser socializado no útero”, argumenta a socióloga Heleieth Saffioti. Fertilizações e inseminações, cada vez mais freqüentes no mundo, vão desmistificar ainda mais a relação que começa no ventre.

Freud, o fundador da psicanálise, deu especial importância a esse vínculo. Sabia que a presença materna é insubstituível na primeira infância. É o caminho pelo qual a criança se aventura a explorar o mundo. Melanie Klein, austríaca como Freud, debruçou-se sobre o elo estabelecido no ato de amamentar. No seio materno, o bebê descobre sentimentos de amor e raiva, experimenta sensações de amparo e abandono. Trata-se, enfim, de um contato fundamental na formação da personalidade infantil. Jacques Lacan, outro discípulo de Freud, estabeleceu diferenças marcantes entre a figura paterna e a materna. Dizia que o pai é a lei, a mãe o afeto. Ou seja, ao pai cabe a transmissão de valores; à mãe, a transmissão de costumes. E, acima de tudo, através dela os filhos sentem que alguém os ama de maneira incondicional. “Isso rende cotas de auto-estima e confiança para enfrentar frustrações futuras”, diz Rita Calegari, psicóloga do Hospital e Maternidade São Camilo.

Talvez os cientistas venham a concordar que o amor materno não passa de uma versão romantizada do instinto de preservação da espécie, presente nos animais. Ou se rendam à tese polêmica de duas escritoras francesas, Simone de Beauvoir e Elisabeth Badinter, de que o instinto materno é um mito. Por volta de 1950, Simone dizia que “o amor materno nada tem de natural”. Elisabeth, nos anos 80, pregava a eliminação das diferenças entre pai e mãe na organização familiar. Mas inúmeros estudos clínicos comprovam: o desamparo que os filhos sentem com a perda da mãe é especial. “Nunca se está preparado para enfrentá-lo”, diz Fernanda Mantovani, coordenadora de apoio psicológico do plano de saúde Samcil. A paulistana Sandra Graminha, de 39 anos, não se esquece do dia em que a mãe, Dora, deu entrada no hospital. “Ela estava ótima. Só se queixava de uma dorzinha nas costas, que parecia mau jeito”, diz. A dor evoluiu rapidamente e, na madrugada, Sandra viu a mãe ser levada para a UTI. Um enfarte fizera o coração parar de bater e a falta de oxigenação tinha lesado 90% do cérebro. “É difícil aceitar”, avalia hoje. “Talvez eu não tenha sido atenta o suficiente para perceber que aquela dorzinha era algo sério.” Dora morreu há um mês.

As ciências sociais lançaram teses sobre o valor da presença materna. Até por volta do século XVIII, na Europa, o local de trabalho masculino confundia-se com o ambiente doméstico. Havia uma natural “paternagem” — ou seja, um tecelão poderia ver crescer os filhos enquanto ganhava o sustento. Com a urbanização e, mais adiante, a expansão do capitalismo, o espaço privado foi endereçado às mulheres. Por isso, a provedora de alimento, proteção e afeto é vista como uma invenção da família moderna. “A mãe tinha status inferior da porta da casa para fora, mas mantinha-se como figura central no lar”, explica a antropóloga Myriam Moraes Lins de Barros, autora do livro Autoridade & Afeto.

As sociedades se transformam, as mulheres invadem o mercado de trabalho, arcam com mais responsabilidades, mas ainda são vistas como o esteio da casa — e dos filhos. A recifense Lucicleide Soares sabe exatamente o que isso significa. Sua rotina desmoronou em maio de 1995, quando viu a mãe entrar num camburão da polícia. Pela televisão, soube que Edineide era apontada como mandante de um assassinato, pelo qual foi condenada a 21 anos de prisão. Lucicleide, com 12, ficou com a avó, enquanto os irmãos foram morar no interior. Nos primeiros tempos, culpou amargamente a mãe por tantos transtornos. Depois, passou a freqüentar bailes da periferia. Terminou arrumando uma gravidez fora de hora e uma filha que mudou sua maneira de ver a mãe-presidiária. “Passei a visitá-la na cadeia, a ter saudade, a esperar por sua liberdade”, comenta. Edineide, cuja pena foi reduzida por bom comportamento, poderá voltar ao convívio da família dentro de dois anos.

O Dia das Mães, para esta filha, segue o ritual da visita ao presídio. Em cada encontro, ambas experimentam a possibilidade de recompor laços afetivos. Já para a faxineira Maria Lúcia Alves, de 38 anos, de São Paulo, é uma ocasião conflitante, quando ela recebe o carinho da família e, mais uma vez, condena a mãe que a abandonou. Maria Lúcia foi “dada” a uma família quando tinha 6 anos. A mãe sumiu no mundo e ela tornou-se doméstica na casa de quem a tomou para criar. “Jamais vou deixar de pensar que ela não me quis”, afirma. Para o goiano André Guerra, no entanto, o Dia das Mães é uma data especial. Adotado quando bebê, sempre quis encontrar quem o pôs no mundo. Aos 14 anos, a mãe adotiva morreu. “Daí me senti perdido”, conta. Largou o colégio e foi trabalhar em restaurante. Há dois anos, procurado por uma assistente social, soube que tinha uma irmã. E, melhor que isso, sua mãe o procurava. Hoje com 21 anos, o ex-ajudante de cozinha mora na casa materna e voltou a estudar. Aceitou, sem mágoas, o relato de que a mãe foi obrigada a entregá-lo para adoção após o parto. Feliz André, que pôde nascer de novo.

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