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Nas bancas: “Cantar Elis é como cuidar da mãe com quem não convivi”

INSPIRAÇÃO A cantora Maria Rita, grávida de oito meses no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. “Tive de inventar um jeito de ser mãe” (Foto: Daryan Dornelles/ÉPOCA)
INSPIRAÇÃO
A cantora Maria Rita, grávida de oito meses no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. “Tive de inventar um jeito de ser mãe”
(Foto: Daryan Dornelles/ÉPOCA)

Maria Rita chega andando devagar ao Jardim Botânico, onde nosso encontro estava marcado. Segura a barriga redonda, de oito meses, visível mesmo sob o vestido largo, em tons de lilás. Fala do calor, de quase 40 graus, da tarde carioca. E pede para fazer as fotos logo. “Antes que a maquiagem derreta”, diz. Ri com os olhos apertados, como os da mãe, Elis Regina. Também é parecida a gargalhada gostosa, galhofeira. Ela fala do trabalho e de Elis com serenidade. Maria Rita, aos 35 anos, está lançando CD e DVD deRedescobrir, o show em homenagem à mãe, que morreu quando ela tinha 4 anos. O espetáculo foi visto por 300 mil pessoas no Brasil inteiro. “Identifiquei-me totalmente com ela”, diz Maria Rita. “Foi como se ela me pegasse pela mão.”

ÉPOCA – Qual o saldo profissional de passar quase um ano cantando Elis Regina em shows pelo Brasil?
Maria Rita –
 Como a turnê acabou de terminar, ainda não tive distanciamento suficiente para saber. Mas sei que não é um saldo devedor (risos). Não há nada no vermelho. No começo, estava insegura. Lembro uma primeira conversa com meu irmão (o músico João Marcello Bôscoli), o idealizador dessa homenagem aos 30 anos da morte de nossa mãe, quando disse: “E se depois eu nunca mais conseguir cantar outro repertório? E se eu virar para sempre a cantora que canta Elis?”. Hoje pode parecer meio exagerado, mas, então, eu via como um desafio capaz de acabar com minha carreira. Não por mim, mas pela expectativa, pela força da obra de minha mãe.

ÉPOCA – E como você venceu esse medo?
Maria Rita –
 Conversei muito com meu irmão e com muitos amigos. Alguns tratavam como uma missão que eu tinha de cumprir. Só relaxei para tocar em frente o projeto quando me convenci de que cantar Elis era uma forma de apresentar sua obra às novas gerações. E também de proporcionar uma redescoberta aos que já a conheciam. Eu me convenci de que fazer aquilo era importante para a cultura brasileira. Durante essa temporada, pensei também que as pessoas sempre cuidam de seus pais, vivos, quando eles chegam à terceira idade. Como ela morreu, e eu era muito pequena, cuidar da memória dela é uma forma de cuidar dessa mãe com quem não convivi. Embora acredite que ela, aos 67 anos, ainda teria hoje enorme vitalidade!

ÉPOCA – Por que o distanciamento tão radical do repertório de Elis, numa década de carreira?
Maria Rita –
 Quando decidi ser cantora, há dez anos – e até antes disso –, me impus esse distanciamento. Era um momento diferente. Recusar era necessário para estabelecer minha trajetória. Nesse meio-tempo, vivi sob dois tipos de pressão. Havia pessoas que me abordavam nas ruas, por e-mail ou pelas redes sociais, dizendo que era um absurdo eu não cantar Elis, nossa artista maior. Um estranho chegou a citar a Bíblia, afirmando que não devemos renegar nossos pais. E havia o oposto. Gente que nos comparava o tempo todo, me questionando se eu achava que poderia ser tão boa quanto ela. “Como ousa?” Não foi nada fácil.

ÉPOCA – Nos shows, os arranjos e sua forma de cantar eram praticamente idênticos aos de Elis. Era uma intenção declarada?
Maria Rita –
 Sim! Quem sou eu para dizer a Picasso para mudar uma linha de uma pintura? Há clássicos de Elis cujo registro está no inconsciente coletivo, como “O bêbado e a equilibrista” ou “Como nossos pais”. É um registro emocional. Não dá para cantar diferente, nem eu poderia tomar certas liberdades com essas canções, por respeito ao público. E, sendo um tributo, era aquilo que as pessoas esperavam. Que eu revivesse aquilo tudo da forma mais fiel possível.

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ÉPOCA – Apesar de sua segurança de fazer o projeto, foi doloroso? Você chorou no palco várias vezes.
Maria Rita –
 Chorei, sim, contei histórias, elogiei, desabafei. Abri a porteira. Acho que as pessoas queriam isso, esse encontro, esse desabafo coletivo. Foi bom dissipar essa mentira que alguém comprou, de que eu rejeitava a história de minha mãe. Fui esperta em algumas coisas. Não botei no repertório, por exemplo, “Aos nossos filhos” (Perdoem a cara amarrada/Perdoem a falta de abraço/Perdoem a falta de espaço), uma música que não me controlo nem de ouvir, quanto mais de cantar.

ÉPOCA – Como escolher as canções do show numa obra tão vasta e de tanta qualidade?
Maria Rita –
 Alguns clássicos não poderiam não estar. De resto, foi mais ou menos como escolho meu repertório normal: ouvindo, vendo o que mais me emociona. Na primeira peneirada, foram 65. Terminamos com 29 músicas, um show enorme. Cantar o que ela cantou trouxe um ganho inimaginável para minha vida profissional, em termos de melodia, inteligência musical.

ÉPOCA – Alguma canção, em especial, chamou sua atenção?
Maria Rita –
 “Essa mulher”, da Joyce. Por falar tanto de nós, mulheres, de todas as nossas facetas. Ouvindo essa música, entendi minha mãe e me entendi. De certa forma, eu também redescobri Elis nesses shows. Sempre senti uma saudade estranha, porque ela morreu quando eu tinha apenas 4 anos, então, as memórias que tenho são de imagens de família e de registros públicos, entre elas grandes discos e entrevistas. Sempre me senti privilegiada por ter isso tudo de minha mãe por aí, mais que muita gente tem das mães que já se foram. Agora, percebo que me reaproximei dela como filha, mais que como intérprete. De tanto ouvir músicas que ela quis cantar, entendi um pouco mais do pensamento dela, das coisas que valorizava. O mais bonito foi que me identifiquei com ela. Foi como se ela me tomasse pela mão.

“De tanto ouvir o que ela quis cantar, entendi um pouco mais das coisas que ela valorizava. E o mais bonito é que me identifiquei com ela”

ÉPOCA – Você tem um filho de 8 anos e espera mais um para o próximo mês. A maioria das mulheres tem a própria mãe como referência. De onde você tirou as suas?
Maria Rita –
 Do meu instinto. Tive uma avó, mãe do meu pai, com quem convivi até os 12 anos, que eu amava. A perda dela doeu demais. Mas não foi uma referência materna. Quando eu tinha 5 anos, meu pai (o maestro Cesar Camargo Mariano) se casou de novo, e tive uma madrasta. Ela sempre foi dedicada, mas não era mãe. Era madrasta mesmo. Isso percebi quando minha irmã, filha deles, nasceu. Eu tinha 9 anos. Mas levava na boa, achei que era para ser assim mesmo – mãe de uma, madrasta da outra. Nunca me rebelei, achava bonito. Então, inventei um jeito de ser mãe, por total falta de referências. A perda da minha mãe aos 4 anos foi um drama em minha vida. Por isso, durante minha adolescência, pensava que jamais ia querer ter filhos. Hoje, adoro ser mãe.

ÉPOCA – Que tipo de mãe você é?
Maria Rita – 
Sou uma mãe amiga, mas rígida. Eu cobro. Quero criar filhos com valores, integridade. Que tenham sonhos e corram atrás deles. O que mais me dá prazer é vê-lo crescendo, interagindo com as pessoas, tendo amigos. Perceber as descobertas dele. Crio filho para o mundo.

ÉPOCA – Seu marido, Davi Moraes, toca em sua banda. É bom trabalhar junto?
Maria Rita –
 É um companheiro maravilhoso e músico excelente. Sem falar que é bem confortável ter o marido viajando junto, quando se está grávida.

ÉPOCA – Com a turnê terminada, quais são seus planos?
Maria Rita – 
Parir e descansar. Mas não consigo ficar parada muito tempo. Gosto de produzir, dirigir. E voltarei a cantar. Estou segura de ter tomado a decisão de cantar Elis num momento em que tinha atingido maturidade vocal, boa repercussão do público e da crítica, em que já tinha minhas próprias histórias para contar. Para mim, fez sentido. Espero que para o público também. De qualquer forma, não aceito e nunca aceitarei ser uma continuação de Elis Regina.

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