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Vai-Vai 2015: isto não é uma biografia, é um desfile

Texto do blog da jornalista Alessandra Alves | Leia aqui

Vai-Vai arquibancada

É um pequeno milagre que eu seja comentarista de rádio já há alguns anos. O rádio é a agilidade em forma de veículo de comunicação, o aqui-e-agora mais radical da mídia. Foi ao ar, já era. Não tem tecla de backspace, não tem como apagar. E não me sinto incomodada em “ler” uma corrida de Fórmula 1 enquanto ela acontece, na minha frente, tentando desvendar algo que possa ter passado despercebido para os ouvintes. Se eu tivesse que fazer essa mesma leitura de outras coisas, acho que ficaria muda diante do microfone, abestada. Isso vale para as artes, por exemplo. Dificilmente consigo sair do cinema ou de um espetáculo com a ideia formada sobre tudo que vi, ouvi e percebi. Preciso digerir essa sopa de sensações para extrair algo que faça sentido para outras pessoas.

Aconteceu isso neste Carnaval, quando fui a um desfile de escolas de samba pela primeira vez. Sempre adorei desfiles e via tudo que fosse possível pela TV. Desde criança, tinha minha preferência por uma escola em São Paulo (Vai-Vai, a escola alvinegra da Bela Vista, bairro onde nasci) e Mangueira (a verde-rosa que me encantou por influência da minha prima Debora e que, depois, me fisgou de vez com o enredo sobre Carlos Drummond de Andrade).

Mas nunca tinha tido oportunidade de ir à avenida, por falta de companhia, de atitude, pura bundamolice mesmo. No ano passado, quando soube que o Vai-Vai homenagearia Elis Regina, no ano em que ela completaria 70 anos, enfiei na cabeça que estaria no Sambódromo do Anhembi desta vez. A ideia, primeiro, era desfilar. Mas fui adiando minha ida à quadra da escola, mesmo depois de encontrar casualmente o presidente de honra, Tobias, e ser estimulada por ele a fazer parte da festa. De novo, a falta de atitude, que a essa altura eu já reconheço. Foi a mesma que quase me fez perder o espetáculo “Elis, a musical”. Não é só bundamolice, é instinto de preservação: sei que qualquer coisa que se relacione a Elis Regina vai me emocionar de forma irremediável. Acho que fujo dessa fragilidade que a emoção me impõe.

Mas, felizmente, sobrepõe-se o medo do arrependimento. Do mesmo jeito que não admiti perder “Elis, a musical”, fui ao Anhembi no dia do desfile e fiquei quase duas horas na fila. Saí de lá com o ingresso e, enfim, assisti a um desfile de escola de samba.

Não tenho competência para julgar os quesitos que compõem as notas das escolas, mas os anos de desfiles pela TV me deram algumas pistas. Das escolas da segunda noite, na qual o Vai-Vai se apresentou, achei a Mocidade Alegre favorita. Lindas fantasias, carros majestosos, alas coreografadas, e um nome de peso no enredo – a atriz Marília Pera. Um desfile “correto”, mas que esteve muito distante de empolgar a plateia como fizera a Gaviões da Fiel, ainda no início da noite.

Mais incapacitada ainda eu me encontrava para julgar o Vai-Vai, pela ligação emocional que tenho com tudo que se relacione a Elis Regina. Achei um espacinho na grade e lá me plantei, desde o fim do desfile anterior, da Acadêmicos do Tatuapé, que veio com um samba magnífico, sobre o ouro.

Maria Rita no Vai-Vai 2015

Chega a hora do Vai-Vai e ouço “Elis Regina” à capela, cantando um trecho de Maria, Maria, de Milton Nascimento e Fernando Brant. Havia informações desencontradas se esse canto à capela seria feito pela filha de Elis, Maria Rita. Na hora, pareceu que se tratava da própria Elis gravada, mas depois eu soube que a dona da voz era a cantora Didi Gomes, de timbre idêntico ao da homenageada. Assim que começou a soar o samba-enredo do Vai-Vai, o Sambódromo entrou em estado de comoção.

As bandeirinhas com o nome do enredo e uma foto de Elis, distribuídas antes do desfile, eram agitadas freneticamente. E o público cantava o samba inteiro. Marotamente, os compositores se apropriaram do refrão de “Maria Maria” e o mestre de bateria integrou-o a uma paradinha estratégica. Resultado: o Sambódromo cantava o “aê-âe-aá-ê” praticamente em uníssono. Eu achava que iria chorar ao longo da homenagem, mas comecei antes que a comissão de frente chegasse ao meu setor.

Maria Rita não cantou à capela. Fazia parte da comissão de frente, abrindo a escola. Estava emocionada, muito. Nunca vou deixar de me comover com essa relação entre as duas. Meu pai morreu quando eu tinha 30 anos. Era uma pessoa querida por muita gente. Não é raro que alguém se manifeste ainda hoje sobre a falta que ele faz. Nunca deixou de ser sofrido ouvir esses relatos, e ele não era nenhuma celebridade. Não consigo imaginar como deve ser reagir ao bombardeio de mídia e público, praticamente incessante nos últimos 33 anos, sobre a falta que Elis faz. E, no caso de Maria Rita, primeiro a cobrança para que ela cantasse. Depois, a comparação. É preciso ter força, é preciso ter raça para enfrentar isso, em público, ao vivo, e ainda fazendo o abre alas para a escola.

De tanto ler sobre os preparativos, eu sabia que o Vai-Vai não viria com um desfile linear, histórico. Não iria contar a vida e obra de Elis, mas mergulhar no universo de algumas de suas canções mais famosas. E ali estavam as Nossas Senhoras Aparecidas de “Romaria”, as redes e os peixes de “Arrastão”, o coração flechado de “Tiro ao Álvaro”. E estava também a ala infantil, graciosamente fantasiada de pimentinhas, evocando o apelido de Elis.

Vai Vai JMB Pedro

Koão Marcello Bôscoli (à esquerda) e Pedro Mariano (à direita), filhos de Elis

Algumas fantasias eu não sabia explicar, como não soube explicar muito bem a homenagem descomunal a Jair Rodrigues – um parceiro importante, mas não mais relevante para a obra de Elis que, por exemplo, César Camargo Mariano, João Bosco e Aldir Blanc, Milton Nascimento, Ivan Lins. Como no espetáculo “Elis, a musical”, achei exagerada a referência hippie que se tenta colar nela. Elis não foi símbolo da contracultura, como talvez Gal Costa tenha encarnado mais, ambas muito menos que a turma dos Novos Baianos. E entendi menos ainda o carro alegórico que fazia referência à ditadura e à censura, com uma escultura sorridente de Elis que foi definida por alguns fãs, ali mesmo e nos dias seguintes, como mais semelhante a Silvio Santos ou ao Senhor Spock.

Mas, que diabos, por que eu precisava entender para gostar?

Logo me lembrei da cena atribuída ao pintor Matisse, questionado por uma senhora sobre as formas de uma figura humana em um de seus quadros. Teria dito a madame: “isso não é uma mulher!” Ao que o artista respondeu: “isso não é mesmo uma mulher, é um quadro.”

Ora, por que me importar com imprecisões históricas ou leituras enviesadas se a sensação, afinal, era tão arrebatadora? Afinal, o sambódromo do Anhembi estava em êxtase. A escola já tinha passado e as bandeiras continuavam se agitando, e a arquibancada continuava cantando o samba. Escrevendo dias depois do desfile e com o Vai-Vai campeão, tenho a forte sensação de que essa comoção influenciou as notas. Se eu questionasse os carnavalescos sobre essa minha tola estranheza, eles com razão poderiam me dizer: “isto não é uma biografia, é um desfile”.

Além de Maria Rita, os outros filhos de Elis – João Marcello Bôscoli e Pedro Mariano – também desfilaram. Os três já têm mais idade do que Elis tinha, quando morreu. Naquela passarela do samba, tenho a impressão de que metade do público emocionou-se por ver homenageada uma artista que marcou sua vida e cuja morte ficou no imaginário como um dos maiores lutos do povo brasileiro.

A outra metade provavelmente não conheceu Elis em vida, mas tem aqui e ali alguma referência de sua obra. Muito desse reconhecimento vem do mito que se formou em torno dela. Mas muito está relacionado ao trabalho da família em mantê-la viva na cultura nacional. O que o Vai-Vai fez alinha-se a esta missão de preservar Elis viva. “Cantora igual jamais se ouviu”, diz o samba. Mas podemos continuar ouvindo, para sempre. Obrigada, Vai-Vai.

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